Caminhos do açaí: Pará produz 95% da produção do Brasil, fruto movimenta US$ 1,5 bi e São Paulo é o principal destino no país

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Cerca de 35% do açaí produzido no Pará vai para outros estados do Brasil. — Foto: Tarso Sarraf/ G1

Produtor de 95% do açaí no Brasil, o Pará possui quase 50 empresas que comercializam o fruto para outros estados, o que representa mais de 1,2 milhão de toneladas do fruto. Esse montante chega a injetar na economia paraense algo em torno de US$ 1,5 bilhão, porém, esse valor é equivalente a apenas 3% do Produto Interno Bruto (PIB) do estado, segundo dados fornecidos ao G1 pelo Sindicado das Indústrias de Frutas e Derivados (SINDFRUTAS).

— Foto: Leandro Rodrigues

Caminhos do açaí é uma série de reportagens especiais sobre a trajetória do fruto, considerado o “ouro” de cor roxa da Amazônia. Elas vão mostrar ainda os destinos dentro e fora do Brasil, e algumas das diferentes formas de consumo nos quatro cantos do país e do mundo.

A conta escalonada funciona da seguinte forma: do total produzido no estado, 60% fica no Pará, 35% segue para outras regiões do país e 5% vai diretamente para o exterior, principalmente para os Estados Unidos. O segundo maior produtor do fruto é o Amazonas (AM), com 52 mil toneladas, seguido por Roraima (RR), com apenas 3,5 mil toneladas, de acordo com informações do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Pará é responsável por 95% da produção de açaí no Brasil — Foto: Leandro Rodrigues

Apesar do Pará e os demais estados do Norte estarem na mesma zona climática e possuírem terrenos semelhantes, a alta demanda de chuvas é um diferencial em favor dos paraenses no aspecto da produtividade do açaí. “O que nos diferencia é a alta pluviosidade. Apesar de outros estados serem muito úmidos também, aqui a chuva é mais intensa. Além disso, aqui também faz sol o ano inteiro. O açaí precisa justamente disso: sol e muita água”, explica Solange Mota, presidente do SINDFRUTAS.

Quando se fala em venda do açaí, Solange explica que o fruto propriamente dito não é comercializado, ou seja, o caroço que tradicionalmente é visualizado nas esquinas paraenses após ser batido na máquina e vendido in natura para consumo como refeição ou sobremesa. “O que chega a outras regiões é a polpa e, a partir disso, são feitos os mais diversos beneficiamentos”, relata.

Em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, respectivamente os principais consumidores de açaí depois do Pará, é comum visualizar o consumo com grãos e frutas. “Antigamente nós comprávamos açaí em lanchonetes. Hoje em dia existem algumas lojas especializadas na venda do fruto, onde você customiza o seu açaí com outros produtos”, afirma Luiza Reis, acadêmica de direito, moradora do Rio de Janeiro que esteve no Pará a passeio.

Rafael Ferreira é diretor de uma empresa que atua com açaí e atende o mercado do sudeste brasileiro. Ele reitera que 25% de tudo que comercializa tem como destino o eixo Rio-São Paulo, algo em torno de 4,5 toneladas por ano. “Nós vendemos anualmente 18,5 toneladas em média. Podemos vender mais e, pra isso, temos um plano de crescimento para manter os clientes atuais, recuperar os antigos e conquistar novos”, completa.

Outra forma de ampliar a atuação é fazendo a mudança na produção, já que atualmente existem apenas duas safras ao ano, uma gera 80% do total produzido e a outra 20%. O dilema enfrentado pelos produtores é o custo para mudar o método de manejo para irrigação e o tempo até recuperar o investimento. “Fazer esse processo custa caro, mas, em quatro anos, a produção quadruplica, ou seja, vale a pena”, disse Solange, do SINDFRUTAS.

Programa pró-açaí ajuda a enriquecer a agricultura familiar — Foto: Tarso Sarraf/G1

No Pará, um dos programas de desenvolvimento da cadeira produtiva é o Pró-Açaí, iniciativa estadual para enriquecer os açaizais dos agricultores de base familiar situados nas regiões de integração do Marajó e do Baixo Tocantins. A estimativa, até 2020, é atingir 90% de todos os produtores rurais, seja com o fomento à utilização de sementes e mudas, ou mesmo, com essências florestais de elevado potencial de crescimento.

Comércio nacional: cuidados e formas de melhorar arrecadação

Para comercializar açaí mesmo no mercado brasileiro, o advogado Antônio Bernardes enfatiza que “no fluxo do comércio nacional, o papel dos contratos é importante, sobretudo, para garantir segurança jurídica aos produtores e empresários que trabalham com o fruto e seus derivados”. Ainda para ele, os acordos podem ser ampliados e, assim, estabelecerem novas metodologias de exploração do açaí.

“Produtores de açaí e empresas paraenses que comercializam a polpa tem a oportunidade de ajustarem seus acordos comerciais de parcerias com empresas dos mercados consumidores do país, como no Rio, São Paulo e Minas, para que possam introduzir a produção de derivados dentro do próprio estado do Pará”, disse Bernardes, que também é especialista em direito internacional pela Universidade da Califórnia e com aperfeiçoamento em Harvard.

Outra forma de crescimento do negócio são os contratos de agenciamento, de distribuição e o de franquia. “Esses contratos devem ser utilizados conforme a estratégia pretendida pelo empresário paraense e o produto que dispõe, de modo que seja, como opção, a simples venda da polpa ou o mix. Alternativas existem, mas é preciso conhecimento técnico para que cada caso seja avaliado individualmente”, finalizou.

*Caio Maia é estudante da Universidade Federal do Pará (UFPA) e estagiário do G1.