Pará tem um assassinato no campo a cada cinco dias

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Estudo da Comissão Pastoral da Terra mostra que 2017 foi o segundo ano mais violento após 2003.

IGOR MOTA / O LIBERAL

Em todo o ano de 2017, 71 foram assassinadas no campo no Brasil. No Pará, foram 22 vítimas. A média de homicídios relacionados a conflitos por terra chega a um morto a cada cinco dias. A estatística é do estudo “Conflitos no campo Brasil 2017″, um trabalho anual da Comissão Pastoral da Terra (CPT) em mapear a violência nas zonas rurais do país. O número de assassinatos só foi pior em 2003, quando ocorreram 73 casos.

Entre as vítimas do ano passado, aponta o estudo da CPT, estão 33 trabalhadores sem terras, 12 posseiros, 11 quilombolas, seis mulheres, seis indígenas, quatro assentados, três aliados, um ribeirinho e um pescador. Considerando os 1.431 conflitos registrados no Brasil em 2017, a média é de um homicídio a cada 20 conflitos.

Uma preocupação da CPT é que o número de assassinatos vem mostrando uma crescente: em 2016 foram 61 homicídios, enquanto que em 2015 foram 50 e 36 em 2014. Só que a violência no campo compõe outras estatísticas. No Brasil, em 2017, foram registradas 120 tentativas de assassinato, 226 ameaças de morte, 137 pessoas agredidas fisicamente e seis casos de tortura. Tudo isso foi praticado contra trabalhadores rurais, ligados ou não a movimentos sociais. Algumas vítimas eram empregados em busca de direitos, como um salário atrasado.

No relatório, a CPT observa que há um equívoco comum em comparar as mortes na zona rural com os índices muito superiores das zonas urbanas. Nas grandes cidades, os conflitos se dão entre criminosos contra criminosos, criminosos contra policiais, criminosos contra cidadãos comuns e até policiais contra pessoas inocentes. Os fatores motivadores, na maioria dos casos, envolvem dinheiro.

No campo, a violência se dá quase sempre entre criminosos contra trabalhadores camponeses, empresários contra movimentos sociais e patrões contra empregados. Nestes casos, os fatores motivadores são a posse da terra, acesso à água ou projetos que ameaçam direitos de comunidades inteiras.

Norte e Nordeste, que concentram muitas áreas rurais e espaço de interesse do agronegócio (legal ou não), representam as maiores parcelas da violência no campo. Dos 1.431 conflitos ocorridos no Brasil em 2017, 496 foram no Nordeste, resultando em 16 assassinatos, 69 tentativas de assassinato (65 só no Maranhão), 130 ameaças de morte (106 apenas no Maranhão) e 62 agressões físicas (48 delas no Maranhão). O maior número de mortos, no entanto, ficou na Bahia: 10 homicídios do total. Os dois estados com as maiores estatísticas violência também tiveram o maior número de conflitos.

No sábado (8), duas lideranças do Movimento dos Trabalhadores Sem Terras (MST) foram executados a tiros por homens encapuzados na Paraíba. Futuras estatísticas negativas de 2018. Os crimes ocorreram no acampamento Dom José Maria Pires, na cidade de Alhandra, na Região Metropolitana de João Pessoa. José Bernardo da Silva, conhecido como Orlando, e Rodrigo Celestino foram as vítimas.

Na região Norte, em 2017, foram registrados 474 conflitos, que resultaram nas mortes de 42 pessoas. Pará e Rondônia concentram os resultados mais violentos, com 22 e 17 mortos, respectivamente. Disparadamente, lideram com os mais altos números de conflitos da região, que ainda teve 36 tentativas de homicídio (22 no Pará), 79 ameaças de morte (41 no Pará), dois torturados (ambos no Tocantins) e 27 agredidos.

Padre Paulinho Silva, um dos coordenadores da CPT no Pará, explica que o relatório só leva em conta mortes com registros oficiais e com inquéritos policiais abertos. Mas ressalta que muitos casos sequer chegam a conhecimento público, com pessoas ainda dadas como desaparecidas. E casos nunca registrados por medo de retaliações ainda mais violentas. Cabe ressaltar que algumas dessas comunidades possuem educação muito incipiente para cobrança de direitos.

Em 2017, observa padre Paulinho, 15 pessoas morreram nos assentamentos Virola-Jatobá e PDS Esperança, em Anapu, ambos criados pela missionária Dorothy Stang, assassinada em 2005 a mando de de fazendeiros e grileiros do município. Alguns deles lideram a ofensiva de difamação contra o o sucessor dela, padre Amaro, que responde a processos por supostos crimes de extorsão, esbulho possessório, estupro e formação de quadrilha. Diante da falta de provas mais consistentes, está respondendo ao processo em liberdade.

O professor doutor em Geografia Carlos Walter Porto Gonçalves analisa que “O aumento dos conflitos se dá, em parte, porque os movimentos sociais viram, na eleição de Lula, uma perspectiva de que houvesse a reforma agrária e, assim, aumentaram sua mobilização, principalmente nos primeiros anos do período. Por outro lado, os setores que são contra a reforma agrária e a democratização do acesso à terra, temendo que Lula pudesse efetivar esse projeto, partiram para um processo de violência”.

Fonte: Oliberal