Esperança de refugiados na África, ‘seleção’ recruta atletas nos EUA

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Darfur United existe desde 2011 em área de conflito e se mantém com doações.

Era madrugada do dia 9 de junho de 2014 e a ConIFA World Cup, a Copa do Mundo dos times que não são filiados à Fifa, realizada na Suécia, havia terminado poucas horas antes.

Sem contar os planos a ninguém, 13 jogadores sudaneses se aboletaram em três táxis e pediram para que os motoristas os levassem ao centro de imigração mais próximo.

“Nós tínhamos 10 mil coroas suecas (aproximadamente R$ 4,2 mil em valores atuais). Demos todo o dinheiro para os motoristas. Não sabíamos que o centro mais próximo estava a 390 quilômetros de distância”, afirma Alexander Mahmoud, um dos atletas.

Quando enfim chegaram ao local, eles pediram asilo, que foi concedido seis meses depois. Todos vivem na Suécia até hoje, conseguiram trabalhos e estão integrados à sociedade do país europeu.

Eles fazem parte de uma das histórias do Darfur United, equipe formada por refugiados da região do Sudão, na África, que vive em estado de emergência humanitária, de acordo com a ONU (Organização das Nações Unidas), desde 2003.

“Darfur United não é um time de futebol. É uma tentativa de dar esperança às pessoas. É um movimento”, define Katie-Jay Scorr, coordenador da iACT, organização não-governamental com sede em Los Angeles, nos Estados Unidos, que teve a ideia de formar uma “seleção” de Darfur em 2011.

A estimativa é que o conflito étnico no local tenha causado cerca de 500 mil mortes em 15 anos e provocado a fuga de 2 milhões de pessoas.

O primeiro recrutamento ocorreu em 12 campos de refugiados na fronteira do Sudão com Chade, que têm até hoje 350 mil habitantes. Era preciso convencê-los de que o projeto valia a pena.

Com doações, a iACT arrecadou cerca de R$ 55 mil. A organização recebeu bolas, cones e outros materiais necessários para os treinamentos. O americano Tracy McGrady, ex-jogador de basquete da NBA, deu as chuteiras e uniformes para a seleção.

Foi quando surgiu a ideia de levar Darfur para a ConIFA World Cup, que seria disputada em 2012, no Curdistão. O torneio reúne “seleções” não reconhecidas pela Fifa não porque elas são equipes independentes da entidade, mas porque formadas por motivos de afinidade cultural, étnica ou linguística.

“Não ganhamos nenhum jogo e só fizemos um gol. Mas o time não é a respeito de vitórias. É para levar inspiração para quem não tem nada no campo de refugiados. É uma maneira de levar paz”, disse Mahamat Enigy, um dos jogadores que foram ao torneio.

Sete anos depois da criação, a equipe está estabelecida e ultrapassou as fronteiras dos campos de refugiados. Neste ano, promoveu testes para recrutar novos jogadores entre pessoas nascidas em Darfur (ou filhos delas) e que moram em Los Angeles.

O FK Östersund, da Suécia, oferece apoio e oportunidades para quem se destacar. O grupo que recebeu asilo em 2014 hoje em dia forma a espinha dorsal do ÖFK Cosmos, equipe que compete na sexta divisão do país europeu.

O desafio agora é levantar fundos para manter academias de futebol nos campos de refugiados e conseguir montar uma equipe feminina, como destaca o site do Darfur United.

No ano passado, jogadores e funcionários do ÖFK Cosmos se comprometeram a doar 0,1% do seus salários anuais. Esse dinheiro foi enviado para Chade para o desenvolvimento de programas de futebol para crianças nos campos de refugiados.

As disputas entre árabes e não árabes em Darfur fazem com que os campos de refugiados e os expatriados da região não falem a mesma língua e nem sejam da mesma etnia. O Darfur United oferece a chance de que encontrem algo em comum no futebol.

Fonte: Folha