Na reta final

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Divulgação de pesquisas assume o lugar do debate de ideias.

Só no fim da rampa do Palácio do Planalto, garantem os institutos de pesquisa, decide-se a corrida. Cinco dias antes da votação, o Datafolha apurou que 28% dos eleitores admitiam trocar o voto para presidente. Muda-se de opinião enquanto se aguarda na fila a vez de entrar na urna. A indecisão em muitos casos permanece até a hora do confirma.

E o que foi oferecido ao eleitor para ajudá-lo a se decidir? Pesquisas, pesquisas e mais pesquisas. De resto, houve golpes baixos (como a divulgação pelo juiz Sergio Moro de trechos da delação premiada de Antonio Palocci) e a proliferação de fantásticas fake news (segundo as quais Fernando Haddad afirma que crianças a partir dos cinco anos passarão a ser propriedade do Estado, e Manuela D’Ávila aparece vestindo uma camiseta com os dizeres “Jesus é Travesti”).

Uma pesquisa por dia. Parece Copa do Mundo: os levantamentos de intenção de voto assumem o lugar catártico do futebol. Meu candidato subiu cinco pontos, não vai ter prorrogação! Puxa, a rejeição do meu escolhido foi chutada nas alturas… Jogo empatado, agora é nos pênaltis! A ansiedade e o desespero são os mesmos de uma final no Maracanã.

Não se pode atribuir a importância abusiva das prévias aos institutos que as realizam nem aos jornais que as divulgam. Mas a obsessão pelos números elimina da disputa seu elemento fundamental: o confronto de ideias, propostas, programas. Tirando alguns momentos de Ciro Gomes e Guilherme Boulos, o último debate na televisão fez espuma. Haddad, de quem mais se esperava, mostrou-se tímido e inseguro. Bolsonaro amarelou, dando o golpe da entrevista em outro canal.

Esta é aquela semana que não esqueceremos tão cedo, por mais que brasileiros se orgulhem de sua curta memória. Lembre-se: você pode mudar o voto até segundos antes de apertar o botão. Depois, já era. A vaca terá ido pro brejo. Ou pro abatedouro.

Fonte: Folha