E agora, Brasil? Um retrato da saúde no Brasil. Carretas adaptadas ajudam a diminuir fila de espera por exames e cirurgias

0
502

Projeto criado por médico paulistano em 2008 usa tecnologia para oferecer atendimento a 2 milhões de pacientes do SUS

“A gente tinha uma África em São Paulo.” Foi a partir dessa constatação, durante a visita a uma favela na zona leste de São Paulo, em 2000, que o endoscopista Roberto Kikawa, 48, decidiu que precisava fazer algo em benefício da saúde da população.

A inspiração para usar carretas veio do modelo do Sesi (Serviço Social da Indústria), criado para qualificação profissional. “Pensei que seria legal pegar aquelas carretas-cozinha e transformá-las em carretas médicas”, afirmou Kikawa. Com essa ideia na cabeça, o médico começou em 2006 o processo de captação de recursos para a construção de um protótipo.

O projeto foi recebido com ceticismo pelos potenciais investidores, pois havia dúvidas sobre as viabilidades técnica e financeira. O médico apostou, então, em uma solução bem pessoal: usou sua rede de contatos com fornecedores de equipamentos hospitalares, pediu doações e colocou dinheiro próprio.

A primeira carreta ficou pronta em 2008. Oferecia exames de endoscopia, mamografia, cardiologia e oftalmologia, os serviços com maior demanda na rede pública.

Até 2010, quando foi assinado o primeiro convênio público, com a prefeitura de Lorena (SP), os atendimentos eram feitos com base em parcerias com sindicatos ou prefeituras para ações pontuais, sempre com usuários do SUS (Sistema Único de Saúde). O primeiro atendimento foi realizado em Santos (SP).

Kikawa percebeu que o modelo de gestão deveria priorizar não apenas a realização de exames, mas também um projeto de acesso integral à saúde (incluindo prevenção), tendo como base a tabela do SUS. Para o fundador do Cies (Centro de Integração de Educação e Saúde), o problema do SUS é de gestão dos recursos, e não a falta deles.

Realização de exame no Cies de Santo Amaro, bairro de São Paulo
Realização de exame no Cies de Santo Amaro, bairro de São Paulo – Lalo de Almeida/Folhapress.

Dez anos depois de sua criação, o Cies soma 12 carretas, além de vans e outras estruturas móveis, como contêineres, que atendem em locais fixos em sistema de rodízio, e ultrapassou a marca de 2 milhões de pacientes atendidos em todos os programas. Do total, 1,9 milhão são da capital paulista.

Michele Campos, 37, entrou recentemente para esse grupo. “Quando cheguei para ser atendida, pensei que fosse sair daqui amanhã, mas a organização do serviço me surpreendeu”, disse, logo após receber o laudo da ultrassonografia mamária.

A supervisora de operações havia sido atendida na Arena Sul, em Santo Amaro, zona sul de São Paulo. Esse é um dos 16 pontos fixos do Cies na cidade e recebe, em média, mil pessoas por dia.

Michele chegou à Arena Sul por encaminhamento da UBS (Unidade Básica de Saúde) Vila Império. A consulta com a ginecologista foi em 8 de maio. O exame, agendado para 5 de julho, foi antecipado em uma semana pelo Cies.

No dia marcado, em menos de duas horas, ela passou pela triagem, realizou o exame e recebeu o resultado. A supervisora considerou satisfatório o tempo de três meses entre a primeira consulta e o retorno à ginecologista, com os exames, marcado para final de julho.

Mesmo aprovando o atendimento na Arena Sul, ela acha que o espaço precisa de melhorias na sinalização para facilitar a triagem e o encaminhamento dos pacientes. Para Michele, o projeto deve ser mantido como uma política permanente da prefeitura. “Cada região da cidade deveria ter três arenas como esta.”

Sala de espera do Cies de Santo Amaro, em São Paulo
Sala de espera do Cies de Santo Amaro, em São Paulo – Lalo de Almeida/Folhapress.

Na capital paulista, o convênio com a prefeitura começou em setembro de 2013. O Cies foi contratado para prestar atendimento em especialidades como oftalmologia, dermatologia, diagnóstico por imagem, cirurgias eletivas ambulatoriais e em hospital dia e exames de laboratório.

A Secretaria Municipal de Saúde fez o chamamento público para ampliar a oferta de serviços, prestando atendimento além da rede própria. A parceria pretende diminuir o tempo de espera por exames e procedimentos e agilizar os atendimentos.

Segundo dados da secretaria, o Cies respondeu por 79% da realização de ultrassonografias e 71% dos exames de endoscopia entregues em 2017. Realizou também 51% das cirurgias do aparelho digestivo e 19% das oftalmológicas do município.

Para ser atendido, o paciente é encaminhado pela rede de atenção primária de saúde municipal -como uma UBS ou AMA (Assistência Médica Ambulatorial). Na Arena Sul, o atendimento é realizado por 16 técnicos de enfermagem e enfermeiros, 35 médicos e 20 pessoas na área administrativa. Uma digitadora, que fica na sala de exame com o médico, agiliza a liberação do laudo.

Segundo Oswaldo Yoshimi Tanaka, diretor da Faculdade de Saúde Pública da USP, iniciativas como a do Cies ajudam a resolver apenas parte do problema: a enorme fila para a realização de exames mais complexos no SUS.

“Uma paciente que fizer uma mamografia em uma carreta e tiver um resultado de suspeita de câncer de mama terá que ir a um hospital para fazer uma biópsia e saber se irá precisar de cirurgia ou quimioterapia. O problema é que nessa hora temos outro gargalo”, conclui Tanaka.

-*Esta reportagem foi produzida pela equipe do Programa de Treinamento em Jornalismo de Saúde, patrocinado pela Roche.

Bons exemplos

Rio de Janeiro tem atendimento humanizado de saúde a refugiados

Iniciativa que capacita servidores no tratamento de estrangeiros é reconhecida pela ONU e soma 15 mil pessoas atendidas

A médica de família Clara Leal examina Fernanda Echezuria, 9 meses, filha da venezuelana Maria Gabriela Pontes ( de blusa vermelha), que chegou grávida ao Brasil, no Posto de Saúde Heitor Beltrão na Tijuca, no Rio de Janeiro. Uma parceria entre a Secretaria de Saúde do Município do Rio e o Programa de Atendimento a Refugiados e Solicitantes de Refúgio Cáritas do Rio de Janeiro atende milhares de estrangeiros. Foto: Lalo de Almeida/ Folhapress

A médica de família Clara Leal examina Fernanda Echezuria, 9 meses, filha da venezuelana Maria Gabriela Pontes ( de blusa vermelha), que chegou grávida ao Brasil, no Posto de Saúde Heitor Beltrão na Tijuca, no Rio de Janeiro. Uma parceria entre a Secretaria de Saúde do Município do Rio e o Programa de Atendimento a Refugiados e Solicitantes de Refúgio Cáritas do Rio de Janeiro atende milhares de estrangeiros. Foto: Lalo de Almeida/ Folhapress

RIO DE JANEIRO
A congolesa Mireille Muluila, 40, trabalhava como funcionária pública quando a guerra civil que assola o país desde 2011 chegou à sua cidade, em setembro de 2014. Largou tudo e veio sozinha para o Brasil, onde sua irmã já estava havia meses.

Sem falar português e sem entender os hábitos, a cultura e a burocracia locais, fez como a irmã: procurou a Cáritas Arquidiocesana, organização humanitária da Igreja Católica que trabalha com imigrantes e refugiados no Brasil desde 1956.

No centro de acolhimento instalado numa casa no bairro do Maracanã (zona norte do Rio), ela recebeu ajuda com a documentação e foi encaminhada a uma unidade de saúde para diagnosticar e tratar um problema de visão.

Mas a conversa com os agentes de saúde não era fácil. Ela falando francês; os profissionais falando português; e as queixas e orientações se perdendo pelo caminho.

“Ainda dei sorte que a médica tinha boa vontade e traduzia a conversa pelo aplicativo do celular”, conta Mireille, que aprendeu português na Cáritas e hoje fala com sotaque.

A congolesa Mireille Muluila, ajuda imigrantes na Cáritas no Rio de Janeiro. Ela chegou no Brasil em 2014 fugindo da guerra civil na Rep. do Congo, e tratou de um problema na rede pública de saúdeA congolesa Mireille Muluila, ajuda imigrantes na Cáritas no Rio de Janeiro. Ela chegou no Brasil em 2014 fugindo da guerra civil na Rep. do Congo, e tratou de um problema na rede pública de saúde – Lalo de Almeida/Folhapress

Assim como aconteceu com Mireille e sua irmã, a Cáritas é a porta de entrada para muitos imigrantes que chegam ao Brasil sem conhecer ninguém e sem saber o que vão encontrar.

Já passaram por ali aproximadamente 15 mil pessoas desde sua fundação no Rio de Janeiro em 1976. Em 1992, a organização humanitária tornou-se parceira do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) no país.

De acordo com os dados do Comitê Nacional para Refugiados (Conare), órgão coordenado pelo Ministério da Justiça, no Brasil houve mais de 33 mil solicitações de refúgio em 2017. Em 2018 os números já ultrapassam os 10 mil pedidos.

A Cáritas focava o trabalho principalmente no apoio jurídico para regularização dos documentos dos estrangeiros. Nos últimos anos, com a mudança nos perfis migratórios, passou a se concentrar também no atendimento médico e estabeleceu uma parceria com a Secretaria Municipal de Saúde.

O maior nó era a dificuldade que os estrangeiros tinham para se comunicar com os agentes de saúde. “Existe um interesse e uma preocupação das equipes em garantir o atendimento dos estrangeiros.

Mas, na prática, se não houver uma sensibilização e capacitação dos profissionais, tem-se entraves para ao acesso dos refugiados à saúde”, diz Débora Alves, coordenadora de integração da Cáritas.

O projeto atual consiste em treinar primeiro os profissionais das unidades municipais de saúde que mais atendem aos recém-chegados. De acordo com a Secretaria Municipal de Saúde, o maior fluxo está concentrado na zona norte da cidade, nos bairros da Maré, Vigário Geral e Méier.

A médica de família Clara Leal examina Fernanda Echezuria, 9 meses, filha da venezuelana Maria Gabriela Pontes ( de blusa vermelha), que chegou grávida ao Brasil, no Posto de Saúde Heitor Beltrão na Tijuca, no Rio de Janeiro. Uma parceria entre a Secretaria de Saúde do Município do Rio e o Programa de Atendimento a Refugiados e Solicitantes de Refúgio Cáritas do Rio de Janeiro atende milhares de estrangeiros.A médica de família Clara Leal examina Fernanda Echezuria, 9 meses, filha da venezuelana Maria Gabriela Pontes ( de blusa vermelha), que chegou grávida ao Brasil, no Posto de Saúde Heitor Beltrão na Tijuca, no Rio de Janeiro. Uma parceria entre a Secretaria de Saúde do Município do Rio e o Programa de Atendimento a Refugiados e Solicitantes de Refúgio Cáritas do Rio de Janeiro atende milhares de estrangeiros. – Lalo de Almeida/Folhapress.

Os médicos, enfermeiros e gestores que trabalham nesses pontos recebem materiais informativos e participam de debates e palestras sobre as diferenças culturais e questões de saúde específicas dos países de origem dos pacientes.

Segundo Bárbara Ingenito de Oliveira, responsável técnica da Policlínica Hélio Pellegrino, localizada na Tijuca (também na zona norte) e uma das unidades de referência para estrangeiros, há ainda uma preocupação em designar médicos ou enfermeiros que falem o idioma dos pacientes. “Essa ação preparou os servidores para o atendimento das pessoas que, além de falarem outra língua, vêm de culturas diferentes”, afirma.

O médico de saúde da família Rodolfo Rego Deusdara, que atende na policlínica desde 2014, conta que, no início, existia um receio das equipes sobre como seriam os atendimentos. “Não sabíamos como seria a formação do vínculo com os pacientes por causa da barreira da língua.”

Para ajudar o contato, a Secretaria de Saúde lançou em 2015 uma caderneta do usuário em três idiomas (francês, espanhol e inglês). Assim, os médicos conseguem acessar com mais facilidade um breve histórico de exames, remédios e atendimentos.

A venezuelana Maria Gabriela Moreno Pontes, 30, não conhecia o Brasil e não falava português quando chegou com a família em outubro do ano passado. Estava grávida de oito meses. Segundo ela, havia o risco de perder o bebê por desnutrição. Por causa do programa, foi encaminhada para a Clínica da Família Heitor Beltrão, na Tijuca.

O resultado é o primeiro brasileiro da família, um menino de sete meses que acompanha a mãe nas aulas de português na Cáritas.

Na sede da Cáritas, são organizadas campanhas de vacinação contra doenças como sarampo, poliomielite e febre amarela, e disponibilizados serviços de orientação sobre prevenção de doenças sexualmente transmissíveis e métodos anticoncepcionais.

E é ali que trabalha a congolesa Mireille, contratada pela instituição desde 2015 para ajudar imigrantes como ela a se adaptarem ao país. “Apesar de haver várias nacionalidades, eu tenho facilidade em lidar com a situação, porque sou igual a eles”, completa.

-*Esta reportagem foi produzida pela equipe do Programa de Treinamento em Jornalismo de Saúde, patrocinado pela Roche.

FOTOS DO CADERNO SÃO DE LALO DE ALMEIDA

Nascido em São Paulo em 1970, Lalo de Almeida é fotógrafo da Folha e colaborador do jornal The New York Times. Em 2017, foi premiado pelo World Press Photo pelo ensaio das crianças com microcefalia, vítimas do vírus Zika.

Renúncia fiscal e emenda parlamentar barram avanço do SUS

Redução do orçamento e má distribuição de recursos prejudicam o sistema de saúde, dizem especialistas.

Debate da Folha e do Banco Mundial sobre o Futuro do SUS, no auditório da Folha, em São Paulo. Foto: Eduardo Anizelli/ Folhapress.

SÃO PAULO

É consenso entre especialistas que o SUS (Sistema Único de Saúde), que completou três décadas neste ano, precisa passar por uma reforma estrutural. Entre os principais gargalos que travam a eficiência da saúde pública, estão as renúncias fiscais e as emendas parlamentares.

Essa foi uma das conclusões apontadas pelos palestrantes que participaram do seminário E Agora, Brasil? Saúde – O futuro do SUS, realizado pela Folha em parceria com o Banco Mundial, na terça-feira (21), em São Paulo.

O evento aconteceu no auditório do jornal e teve a mediação da jornalista e colunista da Folha Cláudia Collucci.

As renúncias tributárias são perdas de arrecadação que o governo registra ao reduzir impostos com caráter compensatório ou incentivador.

Neste ano, o total de renúncia fiscal do governo federal em todos os setores da economia é estimado em R$ 283,4 bilhões, segundo o TCU (Tribunal de Contas da União).

O presidente do Conselho Nacional das Secretarias Municipais de Saúde, Mauro Junqueira, chamou a atenção para o fato de que o montante é o dobro do orçamento do Ministério da Saúde -de R$ 125,3 bilhões em 2017.

Mauro Junqueira, presidente do Conselho Nacional das Secretarias Municipais de Saúde - "Quando alguém tem um acidente, quem salva a vida não é o plano de saúde, é o Samu. O Luciano Huck e a Angélica tiveram um acidente de avião e foi o Samu quem os levou ao hospital"
Mauro Junqueira, presidente do Conselho Nacional das Secretarias Municipais de Saúde – “Quando alguém tem um acidente, quem salva a vida não é o plano de saúde, é o Samu. O Luciano Huck e a Angélica tiveram um acidente de avião e foi o Samu quem os levou ao hospital” – Eduardo Anizelli/Folhapress.

“Nos últimos 15 anos, foram concedidas renúncias fiscais que somam R$ 4 trilhões. Isso dá 30 anos de orçamento do Ministério da Saúde”, afirmou Junqueira.

A relevância das renúncias fiscais individuais, como a dedução do Imposto de Renda dos gastos com saúde, também foi questionada.

Para a professora de economia da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) Mônica Viegas, o abatimento dos tributos não é o que determina a decisão pessoal de contratar um plano de saúde.

Mônica Viegas, professora da Universidade Federal de Minas Gerais -"O Sistema Único de Saúde é a maior política social e a maior política de transferência de renda que temos no Brasil, que funciona muito mais até do que o Bolsa Família"
Mônica Viegas, professora da Universidade Federal de Minas Gerais -“O Sistema Único de Saúde é a maior política social e a maior política de transferência de renda que temos no Brasil, que funciona muito mais até do que o Bolsa Família” – Eduardo Anizelli/Folhapress.

Os especialistas citaram como exemplos do impacto negativo das renúncias tributárias os benefícios dados à produção de motocicletas na Zona Franca de Manaus e à indústria de bebidas açucaradas, já que ambas ajudam a aumentar as filas do sistema de saúde brasileiro.

No caso das motos, a região responde por cerca de 98% da produção nacional do veículo, segundo a Abraciclo (Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas).

Em 2016, elas estiveram envolvidas em 32% dos acidentes fatais, o tipo de veículo que registrou mais mortes no trânsito brasileiro, de acordo com o Observatório Nacional de Segurança Viária.

“Quando não levam embora a vida de jovens trabalhadores, elas causam a aposentadoria deles. E, mesmo assim, vamos continuar dando isenção fiscal para motos?”, questionou Junqueira.

Também apontadas como importante entrave na organização da gestão da saúde brasileira, as emendas parlamentares são uma espécie de atalho no orçamento, e dão a deputados e senadores acesso a verbas públicas que são distribuídas em bases eleitorais.

Segundo o presidente do Conselho Nacional de Secretários da Saúde, Leonardo Vilela, as emendas desorganizam e contribuem para a ineficiência do sistema. “Você tem um equipamento ou uma unidade de saúde implantada sem planejamento, obedecendo a critérios políticos do parlamentar e de sua base de apoio.”

Leonardo Vilela, presidente do Conselho Nacional de Secretários da Saúde - "As unidades de saúde estão cada vez piores, com queda no atendimento e na avaliação. Isso mostra a deterioração por ineficiência e falta de financiamento. A saúde pública terá um colapso"
Leonardo Vilela, presidente do Conselho Nacional de Secretários da Saúde – “As unidades de saúde estão cada vez piores, com queda no atendimento e na avaliação. Isso mostra a deterioração por ineficiência e falta de financiamento. A saúde pública terá um colapso” –Eduardo Anizelli/Folhapress.

Junqueira citou como exemplo a compra de um mamógrafo em um município com menos de 20 mil habitantes, feita por meio de emenda.

“Foi colocado em um lugar onde ele não era necessário. Diminuíram o orçamento que deveria ser investido em saúde para que pudessem fazer uma graça dentro do seu curral no parlamento”, afirmou.

Neste ano, os parlamentares terão uma verba total de R$ 8,8 bilhões em emendas individuais, aquelas que pela Constituição o governo é obrigado a executar.

Os especialistas também destacaram no debate outras medidas de mudanças na gestão que precisam ser tomadas para alavancar a eficiência do sistema de saúde.

Um dos caminhos deve ser a implantação do prontuário eletrônico, registro unificado com dados dos pacientes do sistema de saúde em todo o Brasil, que facilitaria o uso dessas informações em um sistema inteligente, segundo a professora Mônica Viegas.

Reduzir a quantidade de pequenos hospitais e combater fraudes no sistema também aumentariam a eficiência, de acordo com Renato Tasca, coordenador de serviços de saúde da Organização Pan-Americana da Saúde no Brasil.

“Mas, para melhorar a gestão, temos também de investir. É um esforço contínuo. Não podemos cair na armadilha de pensar que, aumentando a eficiência, podemos cortar recursos”, afirmou.

Renato Tasca, coordenador de sistemas e serviços de saúde da Organização Pan-Americana da Saúde no Brasil - "Não podemos pensar que um corte de financiamento no SUS, por mágica, vai produzir uma maior eficiência. Para melhorar a gestão, temos também de investir"
Renato Tasca, coordenador de sistemas e serviços de saúde da Organização Pan-Americana da Saúde no Brasil – “Não podemos pensar que um corte de financiamento no SUS, por mágica, vai produzir uma maior eficiência. Para melhorar a gestão, temos também de investir” – Eduardo Anizelli/Folhapress.

O economista sênior do Banco Mundial Edson Araújo destacou que é importante para a melhora do sistema mudar a percepção de baixa qualidade do SUS.

“Se o Brasil quer ter seu sistema público de saúde bem consolidado, tem de ganhar a classe média. Se não houver percepção da qualidade, será difícil sustentar o SUS.”

Edson Araújo, economista sênior do Banco Mundial - "Os médicos ganham mais que a média dos 10% mais ricos da população. Em outros países, não se chega nem perto disso. Precisamos refletir o retorno que se tem desse pagamento"
Edson Araújo, economista sênior do Banco Mundial – “Os médicos ganham mais que a média dos 10% mais ricos da população. Em outros países, não se chega nem perto disso. Precisamos refletir o retorno que se tem desse pagamento” – Eduardo Anizelli/Folhapress.

Para Viegas, a incerteza gera perda de bem-estar para a população. “Se tivermos um sistema que informe à sociedade o tempo que cada um vai esperar para ser atendido, tenho a certeza de que as pessoas vão mudar de posição.”

Segundo Tasca, aprimorar a atenção básica é estratégia fundamental para melhorar o SUS. Também conhecido como atenção primária, o serviço é responsável pela prevenção de doenças, solução de casos simples e direcionamento para atendimentos de média e alta complexidades.

Jocelino de Menezes, secretário-executivo substituto do Ministério da Saúde -"Essa epidemia de emendas parlamentares é uma doença genuinamente brasileira, que precisa ser erradicada. Não podemos fazer gestão por meio de emendas e, pior ainda, de emendas impositivas"
Jocelino de Menezes, secretário-executivo substituto do Ministério da Saúde -“Essa epidemia de emendas parlamentares é uma doença genuinamente brasileira, que precisa ser erradicada. Não podemos fazer gestão por meio de emendas e, pior ainda, de emendas impositivas” – Eduardo Anizelli/Folhapress

Uma das saídas para esse aprimoramento é aumentar o escopo da prática de profissionais da saúde. Segundo Araújo, no Canadá e no Reino Unido, países onde o modelo do SUS foi inspirado, o primeiro ponto de contato na atenção básica são os enfermeiros, e não os médicos.

“Essa medida poderia ajudar a tirar do sufoco os municípios que querem expandir a atenção primária”, afirmou.

Fonte: Folha