Violência manda lembranças do mundo real para os presidenciáveis

0
374

Ataques atribuídos ao PCC evidenciam um pilar da campanha eleitoral deste ano, a segurança.

Enquanto o noticiário se diverte com as bizarrices usuais de Jair Bolsonaro, com a unção de um vice para Geraldo Alckmin pelos probos do Centrão ou com a patética greve de fome de meia dúzia de buchas de canhão do PT, a realidade manda lembranças.

Bombeiros trabalham no rescaldo de ônibus incêndiado em Fortaleza, no Ceará

No caso, em forma de uma rediviva onda de violência associada pelas autoridades ao famigerado PCC. Candidatos a presidente precisam se ligar, para ficar na terminologia pedestre: a segurança anda de mãos dadas com a economia nesta eleição.

É verdade que o PCC virou um bode expiatório conveniente quando há problemas de insegurança, pelo seu caráter de questão insolúvel. Ônibus e pontos de parada queimados em Roraima e Fortaleza, delegacias atacadas. É um filme antigo, cuja estreia se deu no cinemão paulista de Geraldo Alckmin.

Como conseguiu domar a violência mais brutal, os homicídios no caso, teoricamente o tucano terá o que mostrar durante a campanha. Mas também terá de explicar a resiliência do grupo oriundo das cadeias de seu Estado, que espalhou-se pelo país por meio de associações e disputas variadas.

Bolsonaro apresenta o discurso conhecido, que pode até conter pílulas de verdade (a inadequação do uso do Exército em operações urbanas), mas apela ao fim para o “matar vagabundo” e ao armamento do cidadão. Não é factível, por óbvio, embora condizente retoricamente com a bárbarie na qual estamos inseridos.

Outros candidatos por ora não têm primazia na discussão. O poste que Lula indicará ao fim de sua pantomima judicial, provavelmente o livre-pensador Fernando Haddad, tenderá a repetir a cantilena politicamente correta que acabou sequestrada pelo discurso de Bolsonaro.

Só há o “matar vagabundo” porque, efetivamente, a esquerda não produziu solução viável nos seus 13 anos no poder.

Quando perguntado sobre o assunto, o hoje em viés de baixa política Ciro Gomes (PDT) fala em “pensar fora da caixa”, sem exatamente dizer o que há dentro ou fora de tal objeto. A etérea Marina Silva (Rede), por sua vez, cita uma genérica reforma do sistema de segurança.

Nos últimos anos, o país tem assistido a uma sucessão de crises no setor, invariavelmente associadas à deterioração das contas públicas dos Estados responsáveis por ele na ponta. O paroxismo ocorreu no Rio, com a intervenção federal que, por não se estender ao governo como um todo, matou a expectativa de mudança e acabou por gerar uma jabuticaba em forma de granada.

Se a melhoria econômica é pré-requisito para praticamente tudo na vida nacional, é inescapável dizer que a segurança pede passagem pela urgência diária de suas demandas —de preferência, sem mistificações como o perdão automático ao criminoso como uma vítima da pobreza. O eleitor já indicou isso, e parte do sucesso relativo de Bolsonaro até aqui tem a ver com esse desejo difuso por ordem.

Em 1911, quando escreveu sobre as queimadas de florestas para abrir espaço a cafezais em São Paulo, o político francês Georges Clemenceau notou que os “os brasileiros contemplam esses espetáculos com um olhar indiferente, e, na verdade, até com satisfação, pois veem na ruína apenas a promessa de colheitas futuras”. “Para mim, a cena só tinha o horror de um abatedouro”, completou.

Talvez haja aí uma percepção maior da psiquê nacional, o que remete a uma citação mais famosa atribuída ao francês, duas vezes premiê de seu país: “Os EUA são a única nação da história que, miraculosamente, passou diretamente do barbarismo para a degeneração, sem o intervalo usual da civilização”.

O século 20 o provou mais ou menos errado, embora sempre haja um Trump para vingar Clemenceau. Se realmente falou aquilo, bastava mirar um pouco mais ao sul para achar um modelo mais preciso. Nossa ruína pode não ter colheita à frente.

Fonte: Folha