De uma estação espacial na Argentina, China expande seu alcance na América Latina

0
324

Instalação foi negociada em segredo, em um momento em que argentinos precisavam de investimento.

A antena gigante sobe do solo do deserto como uma aparição, uma torre metálica com altura equivalente a 16 andares, sobre um trecho varrido pelo vento da Patagônia.

O aparato de 450 toneladas, com um imenso disco voltado ao céu, é a peça central de uma estação de controle de satélites e de missões especiais construída pelas Forças Armadas chinesas, ao custo de US$ 50 milhões (R$ 186 milhões).

A base isolada é um dos símbolos mais notáveis do longo esforço de Pequim para transformar a América Latina e ajudar a direcionar seu futuro nas próximas gerações —em muitos casos de maneira que solapa diretamente o poder político, econômico e estratégico dos EUA na região.

A estação começou a operar em março e desempenha papel central na audaciosa expedição chinesa ao outro lado da Lua —uma empreitada que as autoridades argentinas se dizem entusiasmadas por apoiar.

Mas a maneira pela qual a base foi negociada —em segredo, em um momento no qual a Argentina precisava desesperadamente de investimento —  e a preocupação de que ela poderia elevar a capacidade chinesa de coletar inteligência no hemisfério ocidental geraram debate na Argentina sobre os riscos e os benefícios de ser atraída à órbita chinesa.

“Pequim transformou a dinâmica da região, das agendas de seus líderes e empreendedores à estrutura de suas economias, o teor de sua política e até a dinâmica de segurança”, disse R. Evan Ellis, professor de estudos latino-americanos no Colégio de Guerra do Exército americano.

Por boa parte dos últimos 10 anos, os EUA dedicaram pouca atenção ao seu quintal na América. Em lugar disso, declararam uma virada para a Ásia, com a esperança de reforçar seus elos econômicos, militares e diplomáticos na região, como parte da estratégia do governo Obama para conter a China.

Desde que assumiu, o governo Trump abandonou aspectos fundamentais dessa abordagem, rejeitando um acordo de livre comércio com nações do Pacífico, lançando uma guerra comercial mundial, e se queixando do peso dos compromissos de segurança de Washington para com os mais estreitos aliados do país, na Ásia e em outras partes do mundo.

Enquanto isso, a China vem executando discretamente um plano de longo alcance na América Latina. Expandiu fortemente seu comércio, ajudou a resgatar governos em crise, construiu enormes projetos de infraestrutura, reforçou suas conexões militares e garantiu acesso a grande volume de recursos naturais, atrelando o destino de muitos dos países da região ao seu.

Mesmo com a recente virada política para a direita de algumas partes da América Latina, os líderes da região adaptaram suas políticas de forma a atender a demanda chinesa. Agora, o domínio de Pequim sobre boa parte da região — e o que isso significa para a estatura internacional cada vez menor dos EUA —começa a entrar em foco.

“É um fato consumado”, Diego Guelar, embaixador argentino à China.

O comércio entre a China e os países da América Latina e do Caribe atingiu os US$ 244 bilhões (R$ 908 bilhões) no ano passado, mais que o dobro de seu total uma década antes, de acordo com o Centro de Política Global de Desenvolvimento da Universidade de Boston. De 2015 para cá, a China vem sendo o parceiro comercial dominante da América do Sul, eclipsando os EUA.

Talvez o mais importante seja que a China concedeu dezenas de bilhões de dólares em empréstimos garantidos por commodities a países da América, o que lhe garante grande proporção do petróleo da região — incluindo 90% das reservas equatorianas — por anos.

A China também se tornou indispensável ao resgatar governos em crise e estatais vitais em países como a Venezuela e o Brasil, se dispondo a realizar grandes apostas a fim de garantir seu lugar na região.

Aqui na Argentina, um país que estava excluído dos mercados internacionais de títulos por seu calote sobre US$ 100 bilhões (R$ 372 bilhões) em dívidas, a China caiu do céu para ajudar o governo da presidente Cristina Kirchner.

E enquanto oferecia ajuda, a China iniciou negociações secretas que levaram à estação de controle de satélites e de missões espaciais aqui na Patagônia.

As autoridades argentinas dizem que os chineses concordaram em não usar as bases para fins militares. Mas especialistas rebatem que a tecnologia que ela emprega tem muitos usos militares.

Frank Rose, que foi secretário assistente de Estado para o controle de armas no governo de Barack Obama, disse que dedicava muito do seu tempo a se preocupar com o programa espacial ascendente da China. As autoridades de inteligência e defesa dos EUA veem com preocupação o desenvolvimento de tecnologia sofisticada pela China para interromper as comunicações, desorientar e destruir satélites, nos últimos anos, disse ele.

“Eles estão colocando essas capacidades em operação para reduzir as vantagens militares dos Estados Unidos, que de muitas maneiras derivam de recursos espaciais”, disse Rose.

Antenas e outros equipamentos de apoio a missões espaciais, como os que a China opera agora na Patagônia, podem elevar a capacidade chinesa de coleta de informações, dizem especialistas.

O tenente-coronel Christopher Logan, porta-voz do Pentágono, disse que as autoridades militares dos EUA estavam avaliando as implicações da estação de monitoração chinesa. As autoridades chinesas recusaram pedidos de entrevistas sobre a base e sobre o programa espacial do país.

Para além de qualquer disputa estratégica com os EUA, alguns líderes latino-americanos agora têm dúvidas sobre seus laços com a China, e se preocupam por governos precedentes terem sobrecarregado os países de dívidas, e com a possibilidade de que tenham penhorado seus futuros.

Mas Guelar argumenta que apertar o freio no relacionamento com a China seria uma escolha míope, especialmente em um momento em que Washington abriu mão de seu papel duradouro como âncora política e econômica da região.

“Houve uma abdicação da liderança” pelos EUA, ele disse. “Esse papel deixou de ser exercido não porque os americanos o tenham perdido, mas porque não desejam exercê-lo.”

O governo argentino estava diante de uma crise, em 2009. A inflação era alta. Havia bilhões de dólares em dívidas com vencimento em curto prazo. A raiva da população quanto a o governo, por decisões como a de estatizar US$ 30 bilhões (R$ 112 bilhões) em fundos de pensão privados, estava crescendo. E a pior seca em cinco décadas vinha tornando a situação econômica ainda mais desfavorável.

E foi aí que surgiu a China. Primeiro, o país assinou um swap cambial de US$ 10,2 bilhões que ajudou a estabilizar o peso argentino, e depois prometeu investir US$ 10 bilhões (R$ 38 bilhões) para reparar o dilapidado sistema ferroviário da Argentina.

Em meio a tudo isso, a China também enviou uma equipe à Argentina para discutir as ambições de Pequim no espaço.

Os chineses queriam uma estação de rastreamento de satélites do outro lado do planeta, antes de lançarem sua expedição ao lado escuro da Lua.

Se bem sucedida, a missão, que deve ser lançada este ano, seria um marco na exploração espacial e poderia abrir caminho à extração de hélio 3, que alguns cientistas acreditam possa ser uma fonte revolucionária de energia limpa.

A Organização Geral de Controle de Lançamento e Rastreamento de Satélites, ligada às Forças Armadas chinesas, escolheu esse terreno inóspito de 198 hectares na província argentina de Neuquén.

Flanqueado por montanhas e longe de centros populacionais, o local oferece um ponto ideal, para que Pequim monitore satélites e missões espaciais 24 horas por dia.

Félix Clementino Menicocci, secretário-geral da Comissão Nacional de Atividades Espaciais argentina, uma agência do governo, disse que os chineses haviam prometido desenvolvimento econômico e a perspectiva de participar de uma empreitada história, aos dirigentes de seu país.

“Eles se tornaram protagonistas importantes das atividades espaciais, em poucos anos”, disse Menicocci sobre os chineses e seu programa espacial.

Depois de meses de negociações secretas, a província de Neuquén e o governo chinês assinaram um acordo em novembro de 2012 que dava a China o direito de usar a terra — sem aluguel—  por 50 anos.

Quando os legisladores da província descobriram o projeto, depois que a construção já havia começado, alguns se incomodaram. Betty Kreitman, que era legisladora em Neuquén na época, disse ter ficado indignada por as Forças Armadas chinesas estarem sendo autorizadas a criar uma base em solo argentino.

“Ceder a soberania sobre nosso país é vergonhoso”, ela afirmou.

Quando visitou o canteiro de obras, Kreitman disse ter pressionando as autoridades chinesas em busca de respostas, mas que isso só lhe causou ainda mais preocupação.

Ela recorda que o supervisor chinês das obras descreveu o projeto como “uma janela para o mundo”. E diz que “isso me causou calafrios. O que você faz com uma janela para o mundo? Espiona a realidade”.

Ellis disse que os chineses também devem ter buscado relacionamento com outros países latino-americanos, para o caso de um confronto com os EUA.

“A China está se posicionando em um mundo seguro para que ela ascenda”, ele disse. “Se você pensar no mundo de 2049 da perspectiva latino-americana, a China inquestionavelmente terá superado os EUA, em termos de tamanho e poder absoluto. Francamente, se houver um conflito prolongado, chegará um ponto em que não se poderia negar a possibilidade de que forças chinesas operem de bases na região”.

Fonte: Folha