Governo estima que Brasil perderá este ano 3 milhões de vagas com carteira

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Mesmo com as medidas de socorro anunciadas desde o início da crise do coronavírus, o Brasil deve encerrar o ano com perda de 3 milhões de postos de trabalho formais. O número faz parte de projeções do Ministério da Economia às quais O GLOBO teve acesso.

Caso a estimativa do governo se confirme, será a maior destruição de vagas com carteira assinada já registrada no país. Isso faria com que o mercado de trabalho voltasse ao nível de 2010. O país passaria a ter cerca de 36 milhões de vagas com direitos trabalhistas.

O cenário previsto pelo governo significa que, em apenas um ano, o país eliminaria mais vagas do que durante três anos de crise (de 2015 a 2017), quando foram cortados 2,9 milhões de postos de trabalho. Os saldos positivos acumulados em 2018 e 2019 representaram a contratação de 1,2 milhão de trabalhadores.

Fontes próximas ao ministro da Economia, Paulo Guedes, avaliam que o total das perdas de vagas, no limite, pode chegar a 5 milhões. Segundo essa avaliação, diversos fatores podem influenciar as estimativas, como a duração das medidas de distanciamento social necessárias para conter o vírus e a efetividade de programas de manutenção de emprego criados na crise.

Nos últimos dias, o Ministério da Economia tem apresentado previsões cada vez mais sombrias quanto ao comportamento da economia este ano. Entre as projeções, a tônica se repete: quanto mais tempo sem a retomada da atividade, pior o resultado.

Na última quarta-feira, a pasta revisou sua projeção para o desempenho do PIB este ano para 4,7%, mas ressalta que se o isolamento dos que podem ficar em casa for prorrogado até o fim de junho, o tombo poderia ultrapassar os 6%. Integrantes da equipe reiteram, porém, que seguem as diretrizes do Ministério da Saúde.

Especialistas em saúde pública afirmam que o isolamento social é a única maneira de controlar a disseminação do vírus e evitar um colapso no sistema de saúde. Eles têm ressaltado que retomar as atividades num cenário de escalada da pandemia não surtiria o efeito de elevar o consumo ou preservar empregos.

No fim do mês passado, o próprio ministro da Economia defendeu que “preservar os sinais vitais da economia não significa sair do isolamento agora”. Na ocasião, ele defendeu que a retomada fosse programada e feita no devido tempo.

Na quinta-feira, em uma transmissão ao vivo com o presidente Jair Bolsonaro, Guedes disse que o governo não quer pressionar nenhum poder, mas que a decisão está a cargo dos governadores.

A equipe de Guedes agora avalia que o país vai demorar a se recuperar e só voltaria aos níveis pré-crise em 2022, ano das próximas eleições. Além disso, integrantes da pasta apontam que o Brasil deve ter pela frente uma situação de desemprego estrutural.

Um dos fatores que dificultam o debate sobre os rumos do mercado de trabalho diante da pandemia é a ausência de dados estatísticos. A última divulgação do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), que mensura o nível de emprego com carteira assinada, foi divulgada em janeiro com dados relativos a dezembro.

Desde então, o indicador não foi mais atualizado em razão de mudanças feitas no sistema e porque as empresas enfrentam dificuldade de repassar as informações no meio da pandemia.

O IBGE, que produz indicadores sobre o mercado de trabalho como um todo, que inclui trabalhadores com direitos trabalhistas e informais, enfrenta dificuldades para fazer o levantamento após a suspensão da coleta presencial de dados em razão da pandemia. Em março, a taxa de desemprego subiu para 12,2%, atingindo 12,9 milhões de trabalhadores.

Seguro-desemprego

Com isso, os números de solicitações do seguro-desemprego ao longo dos meses também se tornaram importantes para essas análises.

O ministério prevê que 7,7 milhões de trabalhadores terão acesso ao seguro-desemprego neste ano, segundo as estimativas obtidas pelo GLOBO. Isso não significa, porém, que esse será o total de trabalhadores sem emprego ao fim do ano, porque eles podem ser novamente contratados.

Além disso, parte dos que eventualmente serão demitidos não terão direito ao seguro, admitem técnicos do governo.

No acumulado de janeiro a abril, foram contabilizados 2,3 milhões de pedidos de seguro-desemprego. O número representa aumento de 1,3% em comparação ao mesmo período de 2019. Ou seja, o governo espera que mais 5,3 milhões de trabalhadores solicitem o auxílio até o fim do ano.

Nas últimas semanas, o governo anunciou medidas para proteger empregos. As ações tramitam no Congresso, mas já estão em vigor. A principal delas permitiu acordo para reduzir jornadas de trabalho e salários de trabalhadores em 25%, 50% ou 70% — ou a suspensão do contrato de trabalho —, com parte da renda recomposta pelo governo. Até agora, a medida já atingiu 7,5 milhões de trabalhadores.

Outra medida foi a criação de uma linha de crédito de R$ 40 bilhões para pagamento de salários de firmas com faturamento anual de até R$ 10 milhões.

Fonte: O Globo