PF prende suspeitos de movimentar 1,2 tonelada de ouro extraído de garimpos em Roraima e na Venezuela

0
271

A Polícia Federal (PF) faz uma operação nesta sexta-feira para prender 22 pessoas suspeitas de integrar uma organização criminosa que movimentou ilegalmente 1,2 tonelada de ouro nos últimos três anos, avaliados em R$ 230 milhões. O metal foi extraído de garimpos clandestinos em Roraima e na Venezuela . O esquema contou com a participação de um analista da Receita Federal (RF) e uma auditora fiscal, um procurador e uma servidora comissionada do Estado de Roraima, segundo a PF.

Reportagens publicadas pelo GLOBO em agosto e setembro deste ano revelaram como operam os garimpos ilegais na terra indígena ianomâmi, a maior do Brasil, e no estado de Bolívar, na Venezuela , numa região que está a 250 quilômetros da fronteira com Roraima. Nos ianomâmi, o ouro ilegal mobiliza até 15 mil garimpeiros, que vêm encontrando respaldo no discurso oficial do presidente Jair Bolsonaro. Na Venezuela, a retirada do ouro é capitaneada por grupos armados, entre eles um grupo guerrilheiro colombiano, o Exército de Libertação Nacional (ELN).

As informações divulgadas pela PF até o momento não detalham a origem exata da 1,2 tonelada de ouro movimentada ilegalmente. Segundo a PF, “o grupo criminoso seria composto por venezuelanos e brasileiros que, residindo em Roraima, comprariam ilegalmente ouro extraído de garimpos da Venezuela e de garimpos clandestinos do estado”.

Ao todo, a PF cumpre 85 mandados expedidos pela 4ª Vara Federal de Roraima, expedidos pela Justiça a pedido da PF e do Ministério Público Federal (MPF). A decisão também manda bloquear R$ 102 milhões dos envolvidos. São 17 mandados de prisão preventiva, 5 de prisão temporária, 48 buscas e apreensões e 15 sequestros e bloqueios de bens. Os policiais foram para as ruas em Roraima, Rondônia, Amazonas, Rio Grande do Norte e São Paulo.

‘Sucata de ouro’

Dinheiro, armas e ouro foram apreendidos pela PF na operação contra o garimpo em Roraima Foto: Divulgação/PF
Dinheiro, armas e ouro foram apreendidos pela PF na operação contra o garimpo em Roraima Foto: Divulgação/PF

As investigações começaram em setembro de 2017, após a apreensão de 130 gramas de ouro em Boa Vista. O destino era uma empresa em São Paulo. A PF constatou que a nota fiscal usada, para compra de “sucata de ouro”, era falsa.

Servidores públicos recebiam propina para dar um “aspecto legal” ao ouro, por meio da emissão de documentos falsos por empresas de fachada, segundo a PF. O metal era comercializado por uma empresa especializada na recuperação de minérios, localizada no interior de São Paulo, e mandado para o exterior.

Com a contribuição da Receita Federal, a PF constatou que o grupo movimentou pelo menos 1,2 tonelada de ouro entre 2017 e 2019. A sonegação de tributos alcança R$ 26 milhões, segundo as investigações. Somente em 2018, a empresa sob suspeita exportou mais de R$ 1 bilhão em ouro, conforme a PF. O faturamento triplicou em três anos. A mesma empresa comprava ouro ilegal do Amapá, segundo a PF.

Um dos alvos da operação tem ordem de prisão em aberto expedida pela Justiça da República Dominicana, por tráfico de drogas e lavagem de dinheiro. O nome do acusado está na lista de difusão vermelha da Interpol.

Os servidores públicos envolvidos colaboravam no esquema com “consultorias” para o resgate do ouro e pareceres favoráveis aos interessados no comércio ilegal de ouro. Eles atestavam a remessa do metal a São Paulo. Os crimes investigados são organização criminosa, contrabando, corrupção passiva e ativa, lavagem de dinheiro, receptação e falsidade ideológica e de documentos públicos.

A operação recebeu o nome de Hespérides. Segundo a mitologia grega, numa explicação dada pela PF, seriam os responsáveis por cuidar do pomar onde Hera cultivava macieiras que davam frutos de ouro. As hespérides passaram a consumir os frutos que deveriam guardar.

Fonte: O Globo