Análise: Leilão do 5G pode acabar com namoro duplo de Bolsonaro com chineses e americanos

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harmonização das relações com Pequim e Washington que o governo Bolsonaro — após, em seu início, maldizer a primeira e louvar a segunda — busca estabelecer nos últimos meses deve ser chacoalhada no ano que vem, com o esperado leilão nacional pela exploração da faixa de frequência 5G , dizem especialistas na política externa brasileira. Há grande incerteza se a gigante chinesa Huawei , considerada muito competitiva no setor, será autorizada a fornecer equipamentos aos participantes do leilão. Qualquer que seja a decisão do Brasil, impactará a relação com o outro parceiro.

O calor com que o presidente Jair Bolsonaro exaltou o homólogo Xi Jinping ontem deve ser entendido como uma vitória da realidade e das contingências da economia sobre devaneios ideológicos, afirmou o embaixador aposentado Roberto Abdenur.

— Em política externa, há contradições entre a ideologia e os interesses e a realidade. O governo Bolsonaro se caracteriza por uma postura ideológica de extrema direita, que começou com um alinhamento aos EUA e críticas à China, que ele dizia que estava comprando o Brasil. Os interesses concretos e a realidade, contudo, acabaram se impondo. Bolsonaro mudou inteiramente de posição e entendeu a importância estratégica da China para o Brasil — afirmou Abdenur.

Ao estreitar laços com Pequim, no entanto, o Brasil contraria o principal interesse da Casa Branca no país — precisamente, limitar a influência política e econômica chinesa na América Latina, disse o professor de Relações Internacionais da FGV-SP Oliver Stuenkel. A ascensão chinesa, observou ele, constitui a mais significativa ameaça à hegemonia americana.

— A batalha central desta disputa é o 5G, que os EUA consideram a questão definidora de quem será a potência econômica deste século. São temas de muito longo prazo— afirmou Stuenkel. — A única utilidade do Brasil para os EUA é afastar a influência chinesa, é só isso que Washington valoriza. Até agora, foi possível conciliar as duas relações, mas no ano que vem o Brasil terá que escolher.

Stuenkel e Abdenur concordam que o mais provável é que o governo brasileiro não vete a participação da Huawei como fornecedora. Para o pesquisador, isto deve ter consequências, porque a retórica amorosa que o presidente e Ernesto Araújo dedicam a Washington “não vale nada” e os EUA esperam “coisas tangíveis”. Retaliações americanas, assim, são previsíveis.

— O apoio americano é menos focado na questão econômica e mais voltado a um pacto político, a uma aliança estratégica. Se o Brasil permitir a Huawei no leilão, ela provavelmente será escolhida, e o Brasil deixará de ser apoiado para a entrada na OCDE e perderá o status de aliado importante extra-Otan. Será o fim da tentativa de aproximação com os americanos — prevê Stuenkel.

Caso barre a empresa chinesa — e ambos os analistas destacam que esta possibilidade é real, pois Bolsonaro pode simplesmente querer se manter coerente a todos os elogios que fez a Trump — por sua vez, a represália deve vir da China. Stuenkel prevê “um custo econômico a curto prazo muito alto”, incluindo uma possível retirada de investimentos e a limitação de possibilidades de comércio. Esta hipótese, diz o pesquisador, “não seria considerada por nenhum outro presidente nos últimos 30 anos”. Abdenur vai na mesma linha, e vê na interdição “um gesto de expressiva contundência”.

— Essa virou uma questão de honra para Pequim. Uma coisa que os chineses abominam é a “perda de face” numa disputa. Estão sempre dispostos a absorver uma derrota, desde que isso não represente uma desfeita, uma situação vergonhosa. Por isso mesmo, acho de grande importância que o governo não se deixe levar pela ala ideológica que quer colocar um alinhamento com os EUA como o eixo principal de nossa política externa.

Fonte: O Globo