MATADORES DE MULHERES

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O que leva homens, muitas vezes sem histórico criminal, a se tornarem abusadores e autores de feminicídio

São milhares de exemplos no Brasil, como o que vitimou a diarista Elieide Rodrigues, de 33 anos. Em 18 de março deste ano, ela estava a caminho da escola do filho quando foi atropelada de propósito por um carro que subiu na calçada. Ao volante estava o ex-marido dela, Manuel Gonçalves. Ele ainda desceu do carro armado, atirou e matou a vítima. Manuel não aceitava o fim do casamento.

O estudo ‘Raio X do Feminicídio em São Paulo’, que identificou o dia da semana, horário e armas utilizadas nos crimes, derruba argumentos muitas vezes usados para “minimizar” ou mesmo “justificar” as condutas, como os de que o agressor age bêbado, drogado e de madrugada.

O levantamento dos dias da semana e horários em que ocorreram os ataques concluiu que a maior incidência das mortes, consumadas ou tentadas, é de segunda a sexta, totalizando 68%. Apurou-se também que 41% dos fatos ocorreram durante o dia, entre 6h e 18h, e 59% ocorreram durante a noite, das 18h às 6h da manhã.

“Álcool e drogas são fatores de risco, que potencializam a agressão e tiram os freios inibitórios, mas o principal motivo das mortes é a separação ou o pedido de rompimento não aceito por parte do agressor, seguindo-se os crimes praticados por atos de ciúmes/posse e discussões banais”, reitera a promotora.

O agressor usa instrumentos “caseiros” como facas, ferramentas, materiais de construção ou suas mãos, o que estiver ao seu alcance, para agredir e matar. Além disso, utiliza esses instrumentos com voracidade e repetição de golpes, como se pretendesse “destruir” a mulher. A asfixia está presente como instrumento primário ou secundário em vários casos. A pesquisa demonstrou que em 58% dos casos os agressores usaram arma branca/faca.

A estudante Whailly Michele Mendes da Silva, de 24 anos, escapou da morte por pouco. Ela teve um relacionamento durante seis meses e terminou por ter sido maltratada e ameaçada. Na noite do dia 4 de agosto de 2018, o ex voltou a procura-la e insistiu para que voltassem. Como Whailly se negou, ele pediu um abraço para ir embora e deixá-la em paz.

Quando a jovem se aproximou, o rapaz a atingiu com 13 facadas. Ele esfaqueou a ex seguidamente no peito, braços, cabeça e costas sem dizer uma palavra, enquanto ela gritava. Whailly já havia registrado boletim de ocorrência contra o ex por ameaça.

Elaine Caparróz foi desfigurada em seu primeiro encontro  (R7)

“Eles praticam o crime com muito ódio, com muita raiva, por isso dizemos que são atos de extermínio, porque há repetição de golpes, não é simplesmente uma morte, é uma morte com dor, diz a promotora Valéria Scarance. “São casos em que as mulheres são mortas com dezenas de facadas, queimadas ou asfixiadas.”

Desfigurar a vítima também demonstra esse desprezo pelas mulheres. Vinicius Serra, de 27 anos, o algoz de Elaine Caparróz, de 55 anos, por exemplo, passou quatro horas espancando a paisagista dentro do apartamento dela. Era o primeiro encontro presencial dos dois, após oito meses de conversa pelas redes sociais.

O crime ocorreu em fevereiro deste ano e chamou a atenção pelos requintes de crueldade. A empresária teve fraturas em toda a face, no nariz, no globo ocular, maxilar, dentes, além de um trauma de pulmão e nos rins. “Foi uma atitude monstruosa. Ele chegou a arrancar pedaços dela com mordidas e cuspir”, revelou a delegada Adriana Belém, da 16ª DP (Barra da Tijuca), responsável pelo inquérito policial.

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De onde vem tanta agressividade? Para os especialistas, as mesmas normas sociais que oprimem mulheres também vitimam homens. Eles precisam ser violentos e manter a assimetria de poder para garantir aceitação social.

“Há um empobrecimento da visão do que é ser homem, um modelo de masculinidade limitada, segundo o qual ou se é forte ou fraco, ou se é pegador ou gay, eles não têm referenciais mais complexos”, avalia Tales Furtado Mistura, coordenador do grupo Masculinidades.

“É tão naturalizado que eles têm medo de fugir desses parâmetros e sofrer intimidação de outros homens”, afirma Daniela Grelin, diretora do Instituto Avon. A pesquisa  ‘O Papel do Homem na Desconstrução do Machismo’ mostra que a maioria não quer quebrar velhos paradigmas da desigualdade e sente a pressão dos grupos para seguir propagando o machismo.

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Para se ter uma ideia, 24% dos entrevistados disseram que, no meio de outros homens, não têm coragem de sair em defesa das mulheres. Para 43% deles, em um grupo de WhatsApp, pega mal reclamar quando alguém compartilha, por exemplo, fotos de mulheres nuas.

Mas é justamente entre iguais que pode estar a chave para uma mudança de postura. Pelo menos 35% dos entrevistados no levantamento do Instituto Avon afirmaram que pararam de ter atitudes machistas depois que algum homem falou para não agirem mais daquela forma, e 81% concordaram que devem falar com outros homens para que as mulheres não sofram preconceito.

O diálogo entre homens é a base do projeto de ressocialização de agressores do grupo Masculinidades, que funciona como um braço do Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde.

De três em três meses, é feita uma mega-audiência com cerca de 100 homens que foram acusados de agressão, no Foro Central Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, para que conheçam o grupo e possam participar dos encontros.

“A gente faz reuniões às segundas-feiras, das 18h às 20h, com no máximo 15 homens que estão com processo em andamento. Eles não são obrigados a participar”, explica Tales Furtado Mistura, coordenador do  grupo.

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Ali são homens falando com homens sobre questões de gênero e instigados a rever sua visão de masculinidade. Mistura explica que a ideia é criar uma identificação. “Nós não nos posicionamos como psicólogos, mas conversamos com referências mais complexas. Os resultados objetivos são muito bons: só 6% reincidem, enquanto de forma geral a reincidência chega a 75% entre acusados pela Lei Maria da Penha.”

Promotora de Justiça do Gevid (Grupo de Atuação Especial de Enfrentamento à Violência Doméstica) da cidade de São Paulo, Fabiana Dal’Mas diz acreditar que o machismo mata o homem e a mulher.

O depoimento de um dos participantes do Masculinidades, relatado pelo repórter do R7 Alvaro Magalhães ao acompanhar uma reunião do grupo em 2016, endossa essa realidade. “É que essa coisa de bater em mulher vem de anos. Não é culpa só nossa. E cadeia não resolve. A gente também sofre com isso. Quando aconteceu comigo, eu tinha tomado todas e nem lembrava. Quando vi as fotos dela, de como ela tinha se machucado, fiquei muito mal.”

O desafio, diz a promotora, é trazer os homens para a conversa. “Isso precisa ser feito desde a educação primária de forma preventiva e não excluir a questão de gênero das escolas”, defende.

É possível desconstruir uma personalidade moldada pelo machismo? Para Alexandre Pedro, psicanalista pela Sociedade Internacional de Psicanálise de São Paulo, não resta dúvidas de que sim.

“Um trabalho de ressignificação poderia mudar completamente o rumo dessa história, mas o machismo é tão presente que quem vive o padrão nem percebe.”

A conscientização, recomenda, deveria ser feita desde a infância. Tendo essa base de respeito, compaixão, empatia e amor ao próximo, os homens certamente seriam adultos melhores.

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