‘Chuva atípica’ se repete há séculos no RJ; conheça histórias e imagens de grandes temporais

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Há relatos históricos com centenas de anos: de cartas de José de Anchieta a obras de Machado de Assis. No século 20, há registros e fotos; em 1966, 250 pessoas morreram.

Homens em casa destruída pela enchente em 1911 — Foto: Careta/Acervo da Biblioteca Nacional

Homens em casa destruída pela enchente em 1911 — Foto: Careta/Acervo da Biblioteca Nacional

Ao comentar a enchente de segunda-feira (8), que deixou 10 mortos no Rio, o prefeito Marcelo Crivella afirmou: “Essa é uma chuva completamente atípica”. Mas a história mostra que os temporais, e a destruição que eles causam na cidade, fazem parte do cotidiano há séculos.

Em 1575, apenas dez anos depois da fundação da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, o padre José de Anchieta escreveu uma carta para outro jesuíta contando sobre a força das chuvas em terras cariocas: “[…] choveu tanto que se encheu e rebentaram as fontes […]”.

O relato é um dos vários compilados pela historiadora Andréa Casa Nova Maia em um artigo publicado na Revista da Fundação Casa de Rui Barbosa¹. Eles mostram que as enchentes e os problemas trazidos por ela são praticamente tão antigos quanto a cidade do Rio de Janeiro.

Uma das enchentes mais emblemáticas ocorreu em fevereiro de 1811 e ficou conhecida como “Águas do Monte”. As chuvas destruíram parte do Morro do Castelo, onde nasceu a cidade do Rio, levando casas e deixando vítimas.

O caso foi alvo de um inquérito determinado por D. João VI. A conclusão parece a mesma repetida por prefeitos, autoridades e especialistas até hoje: “falta de conservação das valas e drenos pelos entulhos e lixos e demais imundícies lançados nelas”.

O escritor Machado de Assis citou mais de uma vez as “Águas do Monte” e também outras enchentes em suas crônicas: “Se remontares ainda uns 60 anos, terás o dilúvio de 1756, que uniu a cidade ao mar e durou três longos dias de 24 horas. Mais que em 1811, as canoas serviram aos habitantes, e o perigo ensinou a estes a navegação”.

Geografia e ação do homem

Parte do problema pode ser explicada pela geografia da cidade. O Rio foi fundado em faixas estreitas de terra, com pântanos, mangues e lagoas apertados entre morros rochosos e o mar.

Outra parte é explicada pela ação do homem. Ao longo dos anos, a ocupação desordenada feita com aterros provisórios, vias mal planejadas e esgotamento precário não ajudou a melhorar a situação.

O problema aumenta quando combinado com a falta de conservação, por parte do poder público, e de educação, por parte dos moradores – como ficou concluído no inquérito de 1811 sobre a chuva que atingiu o Morro do Castelo.

Houve episódios de fortes tempestades – com enchentes e deslizamentos – também em 1711, 1756, 1779, 1803, 1833, 1862, 1864… A frequência dos temporais levou Machado de Assis a escrever no fim do século 19: “Não esperes ouvir de mim senão que foi e vai querendo ser o maior de todos os dilúvios”.

Século 20

Depois de 1900, as enchentes mantiveram o ritmo. Há episódios notórios registrados por jornais e revistas em 1906, 1911 e 1928. Agora, já com fotografias.

Imagem da enchente de 1911 no Centro do Rio de Janeiro — Foto: Careta/Acervo da Biblioteca Nacional

Imagem da enchente de 1911 no Centro do Rio de Janeiro — Foto: Careta/Acervo da Biblioteca Nacional

A maior de todas as enchentes chegou em 1966, quando 250 pessoas morreram e mais de 50 mil ficaram desabrigadas. As chuvas transbordaram rios e alagaram a cidade durante cinco dias de temporal.

Assim como nas chuvas deste abril de 2019, o Jardim Botânico foi um dos bairros mais atingidos. A chuva arrebentou as tubulações que drenavam as águas do rio dos Macacos, e várias casas foram destruídas.

Carros são cobertos por água na enchente de 1966 — Foto: Reprodução

Carros são cobertos por água na enchente de 1966 — Foto: Reprodução

No ano seguinte, o deslizamento de uma encosta causado pela chuva destruiu uma casa e dois prédios, provocando a morte de 119 pessoas no cruzamento entre as ruas Belisário Távora e General Glicério, em Laranjeiras, Zona Sul.

Deslizamento deixou 119 mortos em Laranjeiras em 1967 — Foto: Agência Globo

Deslizamento deixou 119 mortos em Laranjeiras em 1967 — Foto: Agência Globo

Em 1988, uma enchente que alagou bairros inteiros e causou caos na capital deixou mais de 300 mortos em duas semanas.

Homens buscam desaparecidos nos escombros deixados pela chuva durante enchente de 1988 — Foto: Reprodução

Homens buscam desaparecidos nos escombros deixados pela chuva durante enchente de 1988 — Foto: Reprodução

Em 1996, nova tragédia. As tempestades causaram deslizamentos e alagamentos que mataram 200 pessoas e deixaram mais de 30 mil desabrigados.

Tragédias recentes

As chuvas “atípicas” continuaram acontecendo após a virada do milênio. Em 2010, a chuva provocou quase 100 mortes no Rio. No desabamento no Morro do Bumba, em Niterói, 48 pessoas morreram e 3 mil ficaram desabrigadas.

Pior chuva dos últimos 44 anos causa estrados e dezenas de mortes no começo do mês. O símbolo da tragédia na região é o deslizamento no Morro do Bumba, em Niterói, em área onde casas foram construídas sobre um antigo aterro sanitário — Foto: Carlos Ivan/Agência O Globo

Pior chuva dos últimos 44 anos causa estrados e dezenas de mortes no começo do mês. O símbolo da tragédia na região é o deslizamento no Morro do Bumba, em Niterói, em área onde casas foram construídas sobre um antigo aterro sanitário — Foto: Carlos Ivan/Agência O Globo

Desastre na Região Serrana

Um ano depois, a maior tragédia climática do RJ deixava quase mil mortos na Região Serrana. Deslizamentos e alagamentos mataram 918 pessoas e deixaram 30 mil desalojados, além de 99 desaparecidos nos municípios de Friburgo, Teresópolis, Petrópolis e Sumidouro.

Carros ficaram soterrados em deslizamento no Vale do Cuiabá, em Itaipava, distrito de Petrópolis, na Região Serrana do Rio — Foto: Matheus Quintal/ Prefeitura de Petrópolis

Carros ficaram soterrados em deslizamento no Vale do Cuiabá, em Itaipava, distrito de Petrópolis, na Região Serrana do Rio — Foto: Matheus Quintal/ Prefeitura de Petrópolis

Mais recentemente, em fevereiro de 2019, 6 pessoas morreram também por causa das enchentes no Rio. Na ocasião, o prefeito Marcelo Crivella afirmou que a extensão da tragédia não era prevista: “Tempestade que não se via há tempos”.